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Risco é coisa séria
17/10/2011
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=79690
Artigo de Francisco G. Nóbrega enviado ao JC Email pelo autor.
A sociedade moderna está banhada em comunicação.
Como "boa notícia não é notícia", a lente psicológica humana registra
sempre um cenário pior que a realidade. A percepção usual é que os
riscos de todos os tipos aumentam dia a dia. A redução global da
violência, por exemplo, é tema do livro recente do psicólogo da
Universidade Harvard, Steven Pinker (http://www.samharris.org/blog/item/qa-with-steven-pinker). Ao arrepio do senso comum, ele demonstra, objetivamente, que estamos progredindo neste quesito.
Mas nossa mente não descança em sua aguda capacidade de detectar
outras fontes de risco. Temos alguns campeões de audiência: energia
nuclear para eletricidade, alimentos geneticamente modificados e
aquecimento global catastrófico e antropogênico. O dano potencial das
três ameaças mencionadas, objetivamente, não se concretizou de maneira
alguma, embora a terceira ameaça deva se realizar no futuro, segundo
seus defensores. As pessoas se encantam com o automóvel e seus
acessórios, cada vez mais atraentes. Não se pensa em baní-lo, apesar de
resultar em cerca de 40.000 mortos e inúmeros incapacitados cada ano, só
no Brasil. David Ropeik, que pertence ao Centro Harvard para Análise de
Risco, explica como facilmente se distorce o perigo real de situações.
Quanto mais afastadas do senso comum (como radiação e plantas
geneticamente modificadas), mais facilmente são manipuladas, por
ignorância ou interesses outros, apavorando o cidadão comum. Ropeik
explica como este medo sem sentido passa a ser um fator de estresse e um
risco objetivo para a saúde das pessoas, devendo ser evitado.
Dentro desse universo, são justificadas as preocupações do Dr. Ferraz
("O feijão nosso de cada dia", Jornal da Ciência, 6/10/2011). Ele é
membro da CTNBio, atua na setorial vegetal/ambiental e sua área de
concentração é em agroecologia, o que explica, pelo menos em parte, suas
dúvidas. No entanto essas preocupações não têm a consistência sugerida
pelo autor e a análise da CTNBio, que resultou na aprovação deste
feijão, é confiável.
A comissão se pauta sempre pelas diretivas da legislação que são
amplas, para dar conta de todas as possibilidades de risco para os
consumidores e meio ambiente. No entanto o corpo técnico existe
exatamente para atuar de maneira seletiva e consciente, examinando caso a
caso. Os testes são examinadas com o rigor que a modificação
introduzida na planta exige para plena segurança. Se as modificações são
consideradas sem qualquer risco significativo, os testes são avaliados à
luz deste fato.
Testes com muitos animais, altamente confiáveis estatisticamente,
seriam exigidos pela comissão na eventualidade de uma planta transgênica
produzir, por exemplo, uma molécula pesticida não protéica que seria em
tudo semelhante a uma droga produzida pela indústria farmacêutica. Isto
poderá acontecer em certo momento, já que as plantas têm capacidade de
produzir os mais variados pesticidas naturais para se defenderem na
natureza. A substância seria absorvida no intestino e se disseminaria
por órgãos e tecidos, possivelmente exercendo efeitos sistêmicos e
localizados que exigem avaliação. Isso já aconteceu, sem querer, com uma
batata produzida por melhoramento convencional nos EUA. Seu consumo
levou a mal estar e foi recolhida apressadamente: portava altos níveis
de glicoalcalóides tóxicos para o homem, o que explicava sua excelente
resistência às pragas da cultura.
No caso do feijão Embrapa, nenhuma molécula não protéica nova é
produzida e o pequeno RNA que interfere com a replicação do vírus, caso
alguém venha a ingerir folhas e caules, será um entre centenas ou
milhares de RNAs que ingerimos diariamente com qualquer produto vegetal.
O RNA introduzido, no entanto, não foi detectado no grão do feijão
cozido, usando técnicas extremamente poderosas.
As variações detectadas, se estatisticamente significativas
(concentração de vitamina B2 ou cisteína por exemplo) não representam
risco algum. A técnica clássica de cultura de tecidos, usada para gerar
variedades de qualidade em horticultura e propagação de árvores,
reconhecidamente resulta em variações naturais que introduzem certas
modificações desejáveis e algumas indesejáveis, que o melhorista depois
seleciona. É a variação somaclonal, que também afeta os clones
geneticamente modificados na sua fase de seleção.
Portanto, é no mínimo ingênuo dizer que o feijão Embrapa 5.1 "deveria
ser idêntico" a variedade de origem pois as manipulações necessárias
para gerar o transgênico resultam em certas alterações que, se
irrelevantes, são ignoradas e se deletérias são descartadas pelos
cientistas. Se fizermos as mesmas análises, cujos resultados preocupam
alguns, com as muitas variedades convencionais consumidas no país, as
diferenças serão impressionantes e irrelevantes para a questão
"segurança".
Como já foi comentado anteriormente, não existe base factual
(bioquímica ou genética) para imaginar que o feijão Embrapa apresente
risco maior do que um feijão comum ou melhorado por mutagênese química
ou física, que por sinal, não é supervisionado nutricional e
molecularmente antes de sua comercialização. Sem base biológica, os
testes tornam-se formalidades supérfluas e o ruído experimental,
principalmente com amostras pequenas, quase inevitavelmente vai gerar
resultados que são irrelavantes a menos que se amplie muito o número de
animais (para amostras controle e transgênicas) além de ser prudente
incluir animais alimentados com outros feijões convencionais para uma
idéia realista do significado das variações detectadas. Imaginem o custo
dessa busca "caça fantasma", desencadeada simplesmente devido a uma
aplicação pouco esclarecida do princípio da precaução. As preocupações
sem base racional, levantadas a todo momento pelos que temem a
tecnologia, se aplicariam com maior lógica aos produtos convencionais.
Caso isso aconteça, do dia para a noite estaria inviabilizada a
produção agrícola do planeta. Por que não fazer estudos com Rhizobium e
nodulação em todos os feijões comercializados? Por que não conduzir
estudos nutricionais de longo prazo com os alimentos convencionais
derivados de mutagênese? Qual a razão lógica que exclui essas
preocupações com as plantas convencionais? Ou a razão seria metafísica? A
alteração introduzida seria "contra a natureza", algo como o pecado
original, que, em muitas interpretações, consistiu apenas em comer o
fruto da "árvore do conhecimento"? Recentemente 41 cientistas suecos da
área vegetal lançaram um manifesto contra a sobre-regulação da genética
moderna na Europa (reproduzido no blog GenPeace: genpeace.blogspot.com).
Os autores observam que, fazendo um paralelo com as exigências para os
produtos farmacêuticos, a "lógica da legislação atual sugere que apenas
drogas produzidas por meio de engenharia genética deveriam ser avaliadas
quando a efeitos indesejáveis".
Instilar o medo com base em suposições não ajuda a proteger a
população ou o meio ambiente. Marie Curie teria dito "Na vida nada deve
ser temido. Mas tudo deve ser compreendido". Considero irresponsável
usar o "princípio da precaução" como alguns o fazem. Inclusive a OMS
caiu nesta armadilha, classificando os telefones celulares no grupo 2B
de risco para causar câncer. A radiação destes equipamentos é cerca de
um milhão de vezes inferior à energia que pode produzir radicais livres e
gerar dano ao DNA. A classe 2B inclui o risco de câncer relativo ao
café, resíduos da queima de combustíveis fósseis e uso de dentadura.... O
que a WHO manteve viva, irresponsavelmente, é a justificativa para a
dúvida, que vai legitimar pesquisas caras e irrelevantes, cujo resultado
será inconclusivo, como o mega estudo anterior. Incrivelmente mais
perigoso é o uso do celular enquanto se dirige.
Francisco G. da Nóbrega é professor da Universidade de São Paulo (USP).
A sociedade moderna está banhada em comunicação.
Como "boa notícia não é notícia", a lente psicológica humana registra
sempre um cenário pior que a realidade. A percepção usual é que os
riscos de todos os tipos aumentam dia a dia. A redução global da
violência, por exemplo, é tema do livro recente do psicólogo da
Universidade Harvard, Steven Pinker (http://www.samharris.org/blog/item/qa-with-steven-pinker). Ao arrepio do senso comum, ele demonstra, objetivamente, que estamos progredindo neste quesito.
Mas nossa mente não descança em sua aguda capacidade de detectar
outras fontes de risco. Temos alguns campeões de audiência: energia
nuclear para eletricidade, alimentos geneticamente modificados e
aquecimento global catastrófico e antropogênico. O dano potencial das
três ameaças mencionadas, objetivamente, não se concretizou de maneira
alguma, embora a terceira ameaça deva se realizar no futuro, segundo
seus defensores. As pessoas se encantam com o automóvel e seus
acessórios, cada vez mais atraentes. Não se pensa em baní-lo, apesar de
resultar em cerca de 40.000 mortos e inúmeros incapacitados cada ano, só
no Brasil. David Ropeik, que pertence ao Centro Harvard para Análise de
Risco, explica como facilmente se distorce o perigo real de situações.
Quanto mais afastadas do senso comum (como radiação e plantas
geneticamente modificadas), mais facilmente são manipuladas, por
ignorância ou interesses outros, apavorando o cidadão comum. Ropeik
explica como este medo sem sentido passa a ser um fator de estresse e um
risco objetivo para a saúde das pessoas, devendo ser evitado.
Dentro desse universo, são justificadas as preocupações do Dr. Ferraz
("O feijão nosso de cada dia", Jornal da Ciência, 6/10/2011). Ele é
membro da CTNBio, atua na setorial vegetal/ambiental e sua área de
concentração é em agroecologia, o que explica, pelo menos em parte, suas
dúvidas. No entanto essas preocupações não têm a consistência sugerida
pelo autor e a análise da CTNBio, que resultou na aprovação deste
feijão, é confiável.
A comissão se pauta sempre pelas diretivas da legislação que são
amplas, para dar conta de todas as possibilidades de risco para os
consumidores e meio ambiente. No entanto o corpo técnico existe
exatamente para atuar de maneira seletiva e consciente, examinando caso a
caso. Os testes são examinadas com o rigor que a modificação
introduzida na planta exige para plena segurança. Se as modificações são
consideradas sem qualquer risco significativo, os testes são avaliados à
luz deste fato.
Testes com muitos animais, altamente confiáveis estatisticamente,
seriam exigidos pela comissão na eventualidade de uma planta transgênica
produzir, por exemplo, uma molécula pesticida não protéica que seria em
tudo semelhante a uma droga produzida pela indústria farmacêutica. Isto
poderá acontecer em certo momento, já que as plantas têm capacidade de
produzir os mais variados pesticidas naturais para se defenderem na
natureza. A substância seria absorvida no intestino e se disseminaria
por órgãos e tecidos, possivelmente exercendo efeitos sistêmicos e
localizados que exigem avaliação. Isso já aconteceu, sem querer, com uma
batata produzida por melhoramento convencional nos EUA. Seu consumo
levou a mal estar e foi recolhida apressadamente: portava altos níveis
de glicoalcalóides tóxicos para o homem, o que explicava sua excelente
resistência às pragas da cultura.
No caso do feijão Embrapa, nenhuma molécula não protéica nova é
produzida e o pequeno RNA que interfere com a replicação do vírus, caso
alguém venha a ingerir folhas e caules, será um entre centenas ou
milhares de RNAs que ingerimos diariamente com qualquer produto vegetal.
O RNA introduzido, no entanto, não foi detectado no grão do feijão
cozido, usando técnicas extremamente poderosas.
As variações detectadas, se estatisticamente significativas
(concentração de vitamina B2 ou cisteína por exemplo) não representam
risco algum. A técnica clássica de cultura de tecidos, usada para gerar
variedades de qualidade em horticultura e propagação de árvores,
reconhecidamente resulta em variações naturais que introduzem certas
modificações desejáveis e algumas indesejáveis, que o melhorista depois
seleciona. É a variação somaclonal, que também afeta os clones
geneticamente modificados na sua fase de seleção.
Portanto, é no mínimo ingênuo dizer que o feijão Embrapa 5.1 "deveria
ser idêntico" a variedade de origem pois as manipulações necessárias
para gerar o transgênico resultam em certas alterações que, se
irrelevantes, são ignoradas e se deletérias são descartadas pelos
cientistas. Se fizermos as mesmas análises, cujos resultados preocupam
alguns, com as muitas variedades convencionais consumidas no país, as
diferenças serão impressionantes e irrelevantes para a questão
"segurança".
Como já foi comentado anteriormente, não existe base factual
(bioquímica ou genética) para imaginar que o feijão Embrapa apresente
risco maior do que um feijão comum ou melhorado por mutagênese química
ou física, que por sinal, não é supervisionado nutricional e
molecularmente antes de sua comercialização. Sem base biológica, os
testes tornam-se formalidades supérfluas e o ruído experimental,
principalmente com amostras pequenas, quase inevitavelmente vai gerar
resultados que são irrelavantes a menos que se amplie muito o número de
animais (para amostras controle e transgênicas) além de ser prudente
incluir animais alimentados com outros feijões convencionais para uma
idéia realista do significado das variações detectadas. Imaginem o custo
dessa busca "caça fantasma", desencadeada simplesmente devido a uma
aplicação pouco esclarecida do princípio da precaução. As preocupações
sem base racional, levantadas a todo momento pelos que temem a
tecnologia, se aplicariam com maior lógica aos produtos convencionais.
Caso isso aconteça, do dia para a noite estaria inviabilizada a
produção agrícola do planeta. Por que não fazer estudos com Rhizobium e
nodulação em todos os feijões comercializados? Por que não conduzir
estudos nutricionais de longo prazo com os alimentos convencionais
derivados de mutagênese? Qual a razão lógica que exclui essas
preocupações com as plantas convencionais? Ou a razão seria metafísica? A
alteração introduzida seria "contra a natureza", algo como o pecado
original, que, em muitas interpretações, consistiu apenas em comer o
fruto da "árvore do conhecimento"? Recentemente 41 cientistas suecos da
área vegetal lançaram um manifesto contra a sobre-regulação da genética
moderna na Europa (reproduzido no blog GenPeace: genpeace.blogspot.com).
Os autores observam que, fazendo um paralelo com as exigências para os
produtos farmacêuticos, a "lógica da legislação atual sugere que apenas
drogas produzidas por meio de engenharia genética deveriam ser avaliadas
quando a efeitos indesejáveis".
Instilar o medo com base em suposições não ajuda a proteger a
população ou o meio ambiente. Marie Curie teria dito "Na vida nada deve
ser temido. Mas tudo deve ser compreendido". Considero irresponsável
usar o "princípio da precaução" como alguns o fazem. Inclusive a OMS
caiu nesta armadilha, classificando os telefones celulares no grupo 2B
de risco para causar câncer. A radiação destes equipamentos é cerca de
um milhão de vezes inferior à energia que pode produzir radicais livres e
gerar dano ao DNA. A classe 2B inclui o risco de câncer relativo ao
café, resíduos da queima de combustíveis fósseis e uso de dentadura.... O
que a WHO manteve viva, irresponsavelmente, é a justificativa para a
dúvida, que vai legitimar pesquisas caras e irrelevantes, cujo resultado
será inconclusivo, como o mega estudo anterior. Incrivelmente mais
perigoso é o uso do celular enquanto se dirige.
Francisco G. da Nóbrega é professor da Universidade de São Paulo (USP).