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Uma luz no ensino paulista?

03/10/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=79507
Artigo de Paulo Ghiraldelli Jr. enviado ao JC Email pelo autor.
Não sei quem é o secretário da Educação atual no governo de São Paulo. Não quero saber. Não ao menos enquanto escrevo que o que está sendo encaminhado por tal secretaria de São Paulo é o correto. Claro que os baixos salários ainda contam mais que tudo e, enfim, qualquer medida sobre o ensino brasileiro, hoje, tem pouco efeito. É necessário, antes de tudo, ampliar salários para tornar o ofício do magistério novamente atrativo para os jovens, principalmente os mais estudiosos e vocacionados. Todavia, uma política de ampliação salarial, se estiver acoplada às medidas tomadas (e as que estão sendo anunciadas), terá tudo para dar certo.
 
As duas principais medidas tomadas pelo estado de São Paulo no ensino médio mostram uma verdade que muitos não queriam ver até pouco tempo. Esta: no passado tivemos a escola pública organizada de modo correto e não foi a entrada em suas salas de aula dos mais pobres que a desestruturou; o que a fez penar foi a legislação da Ditadura Militar e, enfim, tudo que se seguiu até pouco tempo, na democracia.  Agora, o ensino paulista retoma fórmulas (ou deve retomar) do passado que deram certo.
 
A primeira delas é tornar o rol de disciplinas do ensino médio, em termos numéricos de horas aula, mais harmônico. Acreditar que quem tem aula de português e matemática em maior número aprende português e matemática é um erro. Tanto é que depois que o governo anterior aumentou o número de horas-aula de português e matemática, os alunos pioraram nessas duas disciplinas. Saber escrever e ler bem é algo de quem tem cultura geral, não de quem (só) estuda português. Aprender melhor matemática é (mais fácil) para quem tem cultura geral, pois pode interpretar melhor os problemas e conceitos. Assim, o estado de São Paulo não está cortando aulas de matemática e português, está ampliando outras disciplinas, em humanidade e ciências, que ficaram relegadas a segundo plano segundo uma visão reducionista, endossada pela Ditadura Militar e pela equipe do falecido Paulo Renato, a equipe acariciada por FHC e José Serra, equivocadamente.
 
A segunda medida, que também imita o que tínhamos nos anos cinquenta, é a de permitir uma melhor adaptação às vocações, no final do ensino médio. No terceiro ano do ensino médio haverá divisões, feitas pelos alunos, que lembram a separação entre o Clássico e o Científico (e o Curso Normal). Uma vez no terceiro ano, será permitido ao aluno escolher disciplinas ligadas aos seus interesses, de modo que ele possa pensar no ensino médio como algo do âmbito pré-universitário. Essa tendência já é seguida pelos interesses do aluno hoje, e se agora volta oficialmente, vai beneficiar todos ao tornar a escola mais interessante para os jovens.
 
Essas medidas não são incompatíveis com ideais profissionalizantes que, não raro, aparecem na boca dos políticos. No Brasil não é necessário termos "cursos técnicos" para podermos chamá-los de profissionalizantes. Cursos de cultura geral, no Brasil, que é um país cujo mercado cresce no âmbito do setor de serviços, é o que se pode chamar efetivamente de profissionalizante. Mais filosofia ou sociologia ou biologia no Ensino Médio é algo que, no Brasil, propicia a profissionalização. A parte mais técnica, se necessária, não precisa ser feita na escola, deve ser feita na empresa, no próprio trabalho. É mais fácil e mais dinâmico agir assim. A escola básica tem de voltar-se para a cultura geral sólida, não para a profissionalização estreita e precoce, feita melhor, em nível médio, pelas próprias empresas.
 
Agora, o estado de São Paulo precisa mexer mais, ainda, no sistema de fornecimento de material didático. Deve cortar aquelas ligações com as empresas com as quais Paulo Renato e José Serra tinham uma relação de promiscuidade e começar a diversificar os livros, colocando os mais diferentes autores na escola e realmente fornecendo livro gratuito para o aluno e para o professor. Como disse, tudo isso associado a melhores salários para valer, pode fazer a diferença.
 
Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo, escritor e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
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