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Matemática patina onde há mais procura
16/07/2011
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=78831
Você pretende trazer seus projetos para o Brasil? Adoraria, mas quando estiverem no ponto certo. Vou implementá-los na
Rússia, na Tailândia, por que não no Brasil? Só precisamos de bons
parceiros. Meu sonho é ajudar a educação brasileira. Continuo
desenvolvendo tecnologia de baixo custo, justamente por isso.Para descobrir quais estados têm os melhores alunos em matemática,
foi feito um ranking da eficiência educacional na disciplina, com a
relação entre as notas obtidas no Enem e as notas de matemática ao longo
dos outros anos do ensino fundamental, por meio do Saeb. Os estados com
melhores relações foram considerados os mais eficientes em matemática.
Após essa fase, as pesquisadoras reuniram dados de procura (inscritos) e
ingressantes (no vestibular) de cursos do ensino superior: Engenharia,
Administração, Economia, Arquitetura, Medicina, Direito, Física e
Matemática.A pesquisa do Insper também revelou uma tendência natural: os estados
que apresentam as maiores eficiências em matemática são aqueles onde há
mais estudantes interessados em cursar as carreiras mais diretamente
relacionadas a ela, como é o caso do curso de Engenharia. Minas Gerais,
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo, por exemplo, estão
entre as unidades da federação que melhor representam essa relação.O estudo, intitulado "O desempenho educacional como fator de
influência na escolha da profissão", analisou o desempenho em matemática
de escolas públicas e privadas de todo o País. Para isso, utilizou as
notas do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de
2005, 2007, 2009 para 4.ª série e 8.ª série, e do Exame Nacional do
Ensino Médio (Enem) de 2008."Piauí e Sergipe são grandes exemplos dessa relação preocupante:
registram altos números de inscritos e ingressantes nos vestibulares
para formação de professores em exatas e,ao mesmo tempo, têm desempenhos
baixos em matemática", afirma Maria Cristina Gramani.Realidade - Para os professores dos cursos de
Matemática, a pesquisa retrata a defasagem que os alunos apresentam ao
ingressarem no ensino superior. "Os estudantes chegam com uma formação
deficiente, que vem do ensino fundamental e do médio", diz Manoel Vieira
Neto, coordenador do curso da Universidade Federal do Piauí (UFPI).Ele acredita que a grande demanda pelas licenciaturas se deva à baixa
concorrência e, consequentemente, às baixas notas exigidas para o
ingresso nesses cursos. Paulo de Souza Rabelo, chefe do Departamento de
Matemática da Universidade Federal de Sergipe (UFS), concorda.
"Normalmente é o aluno carente, que estudo em escola pública, que vem
com dificuldades", afirma. De acordo com ele, no curso da UFS, apenas
20% dos alunos passam para o segundo ano sem reprovar em nenhuma
disciplina.A dificuldade que os ingressantes nos cursos de licenciatura em
exatas demonstram não é percebida somente nos estados de piores
desempenhos em matemática. "A defasagem é nítida", diz Paulo Roberto
Nascimento, coordenador do curso de Matemática da Universidade Cruzeiro
do Sul, de São Paulo. "Eles precisam de suporte."Equalização -
Apesar de algumas universidades oferecerem cursos de nivelamento para os
universitários com defasagem de conteúdo, os professores afirmam que é
difícil superar as deficiências de oito anos em poucos meses. De acordo
com Rodrigo Capelato, diretor executivo do Sindicato das Entidades de
Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp), os
cursos de nivelamento são comuns hoje. "A maior parte das instituições
já tem, para evitar a evasão. Praticamente todas apresentam alguma
iniciativa nesse sentido", explica Capelato. "Isso mostra a gravidade da
baixa qualidade da nossa educação básica."'O Brasil precisa de consenso sobre o que quer na educação'Aos 39 anos, o brasileiro Paulo Blikstein tem muitas conquistas no
currículo. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), ele é professor
da Universidade de Stanford e acaba de ganhar o Early Career Award, da
National Science Foundation (NSF).O prêmio é um dos mais importantes dos Estados Unidos e é concedido a
jovens docentes. Blikstein receberá US$ 600 mil para investir em seu
projeto, que consiste numa forma inovadora de ensinar conteúdos
avançados de ciências nos ensinos fundamental e médio."Esse prêmio significa o reconhecimento, mesmo por uma instituição
relativamente conservadora, de que as ideias que defendo são possíveis",
disse. Ele vai participar do encontro internacional de educação Sala
Mundo Curitiba 2011, nos dias 17 e 18.Leia entrevista que ele concedeu ao Estado de São Paulo.No que consiste a pesquisa?Ciência de ponta não é feita mais só com tubos de ensaio, é feita com
tubos de ensaio conectados a computadores, que rodam modelos
matemáticos. O que eu fiz foi trazer isso para a escola, trazer ciência
de ponta para o aluno. Chega de ciência da década de 30. E o meu projeto
é fazer o equipamento custar o mesmo que um livro didático, e ser de
código totalmente aberto e público. Teremos quatro universidades
americanas implementando o protótipo em escolas secundárias a partir de
2012, além de escolas na Tailândia e na Rússia.Como a ciência pode ajudar a despertar o interesse do aluno pela escola?Ciência é um instrumento de cidadania. Os problemas do mundo moderno
são muito mais complexos que antes - aquecimento global, neurociência,
etc. Precisamos entender tudo isso para votar, participar do debate
público. Mas para criarmos mais cientistas e engenheiros, temos de
ensinar de um jeito motivador, fazer o aluno gostar de ciência e
engenharia. Boa parte do meu trabalho é criar formas de ensinar ciência e
matemática com o que chamamos de "motivação intrínseca". Você já ouviu
falar de alguém que virou ator mas detestava as aulas de teatro?Como podemos aplicar isso no Brasil?Muita gente acha que no Brasil só podemos fazer o básico porque não
há dinheiro para a educação, muito menos para tecnologia. Não é verdade.
Há dez anos me disseram que não dava para fazer robótica educacional no
Brasil porque os kits custavam US$ 300. Eu voltei para o Massachusetts
Institute of Technology (MIT) e, com meu colega Arnan Sipitakiat, fiz
uma placa de robótica de US$ 20, a GoGo Board.Como você vê a educação no Brasil hoje?O Brasil está avançando, mas precisamos de um consenso nacional sobre
o que queremos. Às vezes queremos imitar Cingapura, outras vezes a
Holanda, sendo que esses países têm sistemas completamente diferentes.
Ficamos correndo atrás de rankings internacionais do mesmo jeito que
corremos atrás do ranking da Fifa, sem saber o que eles medem. Hoje
temos uma chance rara - com todo o crescimento econômico da última
década, podemos reinventar a educação brasileira. Poucos países têm essa
chance. Mas precisamos parar e pensar o que queremos, a escola da
Coreia do Sul, baseada na decoreba, ou a da Finlândia, baseada na
liberdade do aluno e do professor. Os dois são líderes. Precisamos fazer
escolhas.Quais são os nossos principais problemas na educação básica?Uma parte da educação pode ser padronizada, uma parte não pode,
depende do nível de renda, da família, da região, da cultura. Para isso,
precisamos de professores treinados para fazer as duas partes - a parte
mais técnica, de ensinar o currículo, e a parte mais sofisticada, de
adaptar o currículo à realidade local. Professor autômato não funciona.(O Estado de São Paulo)Estados com
piores notas na disciplina em avaliações do MEC são os que têm mais
interessados em seguir carreira de professor em exatas.
Os estados brasileiros que apresentam desempenhos
medianos e baixos em matemática nas avaliações do Ministério da Educação
(MEC) são os que mais registram ingressantes nas carreiras de professor
da área de exatas, como física e mesmo matemática. A conclusão é de uma
pesquisa do Insper (ex-Ibmec).
Para as pesquisadoras Maria Cristina Gramani e Cintia Scrich, essa
relação pode ser perigosa, já que forma um ciclo no qual alunos que
tiveram um conteúdo defasado se
tornam docentes justamente da área em que apresentam mais
dificuldades de aprendizagem. "Isso cria uma relação complicada que só
pode ser revertida ser e forçarmos a base da educação básica", explica
Maria Cristina Gramani.
Rússia, na Tailândia, por que não no Brasil? Só precisamos de bons
parceiros. Meu sonho é ajudar a educação brasileira. Continuo
desenvolvendo tecnologia de baixo custo, justamente por isso.Para descobrir quais estados têm os melhores alunos em matemática,
foi feito um ranking da eficiência educacional na disciplina, com a
relação entre as notas obtidas no Enem e as notas de matemática ao longo
dos outros anos do ensino fundamental, por meio do Saeb. Os estados com
melhores relações foram considerados os mais eficientes em matemática.
Após essa fase, as pesquisadoras reuniram dados de procura (inscritos) e
ingressantes (no vestibular) de cursos do ensino superior: Engenharia,
Administração, Economia, Arquitetura, Medicina, Direito, Física e
Matemática.A pesquisa do Insper também revelou uma tendência natural: os estados
que apresentam as maiores eficiências em matemática são aqueles onde há
mais estudantes interessados em cursar as carreiras mais diretamente
relacionadas a ela, como é o caso do curso de Engenharia. Minas Gerais,
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo, por exemplo, estão
entre as unidades da federação que melhor representam essa relação.O estudo, intitulado "O desempenho educacional como fator de
influência na escolha da profissão", analisou o desempenho em matemática
de escolas públicas e privadas de todo o País. Para isso, utilizou as
notas do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de
2005, 2007, 2009 para 4.ª série e 8.ª série, e do Exame Nacional do
Ensino Médio (Enem) de 2008."Piauí e Sergipe são grandes exemplos dessa relação preocupante:
registram altos números de inscritos e ingressantes nos vestibulares
para formação de professores em exatas e,ao mesmo tempo, têm desempenhos
baixos em matemática", afirma Maria Cristina Gramani.Realidade - Para os professores dos cursos de
Matemática, a pesquisa retrata a defasagem que os alunos apresentam ao
ingressarem no ensino superior. "Os estudantes chegam com uma formação
deficiente, que vem do ensino fundamental e do médio", diz Manoel Vieira
Neto, coordenador do curso da Universidade Federal do Piauí (UFPI).Ele acredita que a grande demanda pelas licenciaturas se deva à baixa
concorrência e, consequentemente, às baixas notas exigidas para o
ingresso nesses cursos. Paulo de Souza Rabelo, chefe do Departamento de
Matemática da Universidade Federal de Sergipe (UFS), concorda.
"Normalmente é o aluno carente, que estudo em escola pública, que vem
com dificuldades", afirma. De acordo com ele, no curso da UFS, apenas
20% dos alunos passam para o segundo ano sem reprovar em nenhuma
disciplina.A dificuldade que os ingressantes nos cursos de licenciatura em
exatas demonstram não é percebida somente nos estados de piores
desempenhos em matemática. "A defasagem é nítida", diz Paulo Roberto
Nascimento, coordenador do curso de Matemática da Universidade Cruzeiro
do Sul, de São Paulo. "Eles precisam de suporte."Equalização -
Apesar de algumas universidades oferecerem cursos de nivelamento para os
universitários com defasagem de conteúdo, os professores afirmam que é
difícil superar as deficiências de oito anos em poucos meses. De acordo
com Rodrigo Capelato, diretor executivo do Sindicato das Entidades de
Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp), os
cursos de nivelamento são comuns hoje. "A maior parte das instituições
já tem, para evitar a evasão. Praticamente todas apresentam alguma
iniciativa nesse sentido", explica Capelato. "Isso mostra a gravidade da
baixa qualidade da nossa educação básica."'O Brasil precisa de consenso sobre o que quer na educação'Aos 39 anos, o brasileiro Paulo Blikstein tem muitas conquistas no
currículo. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), ele é professor
da Universidade de Stanford e acaba de ganhar o Early Career Award, da
National Science Foundation (NSF).O prêmio é um dos mais importantes dos Estados Unidos e é concedido a
jovens docentes. Blikstein receberá US$ 600 mil para investir em seu
projeto, que consiste numa forma inovadora de ensinar conteúdos
avançados de ciências nos ensinos fundamental e médio."Esse prêmio significa o reconhecimento, mesmo por uma instituição
relativamente conservadora, de que as ideias que defendo são possíveis",
disse. Ele vai participar do encontro internacional de educação Sala
Mundo Curitiba 2011, nos dias 17 e 18.Leia entrevista que ele concedeu ao Estado de São Paulo.No que consiste a pesquisa?Ciência de ponta não é feita mais só com tubos de ensaio, é feita com
tubos de ensaio conectados a computadores, que rodam modelos
matemáticos. O que eu fiz foi trazer isso para a escola, trazer ciência
de ponta para o aluno. Chega de ciência da década de 30. E o meu projeto
é fazer o equipamento custar o mesmo que um livro didático, e ser de
código totalmente aberto e público. Teremos quatro universidades
americanas implementando o protótipo em escolas secundárias a partir de
2012, além de escolas na Tailândia e na Rússia.Como a ciência pode ajudar a despertar o interesse do aluno pela escola?Ciência é um instrumento de cidadania. Os problemas do mundo moderno
são muito mais complexos que antes - aquecimento global, neurociência,
etc. Precisamos entender tudo isso para votar, participar do debate
público. Mas para criarmos mais cientistas e engenheiros, temos de
ensinar de um jeito motivador, fazer o aluno gostar de ciência e
engenharia. Boa parte do meu trabalho é criar formas de ensinar ciência e
matemática com o que chamamos de "motivação intrínseca". Você já ouviu
falar de alguém que virou ator mas detestava as aulas de teatro?Como podemos aplicar isso no Brasil?Muita gente acha que no Brasil só podemos fazer o básico porque não
há dinheiro para a educação, muito menos para tecnologia. Não é verdade.
Há dez anos me disseram que não dava para fazer robótica educacional no
Brasil porque os kits custavam US$ 300. Eu voltei para o Massachusetts
Institute of Technology (MIT) e, com meu colega Arnan Sipitakiat, fiz
uma placa de robótica de US$ 20, a GoGo Board.Como você vê a educação no Brasil hoje?O Brasil está avançando, mas precisamos de um consenso nacional sobre
o que queremos. Às vezes queremos imitar Cingapura, outras vezes a
Holanda, sendo que esses países têm sistemas completamente diferentes.
Ficamos correndo atrás de rankings internacionais do mesmo jeito que
corremos atrás do ranking da Fifa, sem saber o que eles medem. Hoje
temos uma chance rara - com todo o crescimento econômico da última
década, podemos reinventar a educação brasileira. Poucos países têm essa
chance. Mas precisamos parar e pensar o que queremos, a escola da
Coreia do Sul, baseada na decoreba, ou a da Finlândia, baseada na
liberdade do aluno e do professor. Os dois são líderes. Precisamos fazer
escolhas.Quais são os nossos principais problemas na educação básica?Uma parte da educação pode ser padronizada, uma parte não pode,
depende do nível de renda, da família, da região, da cultura. Para isso,
precisamos de professores treinados para fazer as duas partes - a parte
mais técnica, de ensinar o currículo, e a parte mais sofisticada, de
adaptar o currículo à realidade local. Professor autômato não funciona.(O Estado de São Paulo)Estados com
piores notas na disciplina em avaliações do MEC são os que têm mais
interessados em seguir carreira de professor em exatas.
Os estados brasileiros que apresentam desempenhos
medianos e baixos em matemática nas avaliações do Ministério da Educação
(MEC) são os que mais registram ingressantes nas carreiras de professor
da área de exatas, como física e mesmo matemática. A conclusão é de uma
pesquisa do Insper (ex-Ibmec).
Para as pesquisadoras Maria Cristina Gramani e Cintia Scrich, essa
relação pode ser perigosa, já que forma um ciclo no qual alunos que
tiveram um conteúdo defasado se
tornam docentes justamente da área em que apresentam mais
dificuldades de aprendizagem. "Isso cria uma relação complicada que só
pode ser revertida ser e forçarmos a base da educação básica", explica
Maria Cristina Gramani.