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O Enem, de novo, artigo de Marcelino Pequeno
17/11/2010
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=74697
"O MEC não avaliou bem as dificuldades de transformar um exame que tinha como finalidade aferir a qualidade das escolas em um exame para dar acesso às universidades"<BR><BR>
<P>Marcelino Pequeno é secretário regional da SBPC/CE. Artigo publicado no jornal "O Povo":</P>
<P>O roubo da prova do ano passado deveria ter blindado o Enem de qualquer possibilidade de erro operacional. O clima de incerteza pode comprometer permanentemente uma iniciativa meritória do MEC.</P>
<P>Utilizar uma prova inteligente, interpretativa e de raciocínio, em substituição a provas que exigem principalmente memória e acúmulo de informações, como estratégia para a reformulação do ensino médio no Brasil, é um avanço conceitual importante. O problema é o descrédito que o exame vai acumulando. Toda reforma encontra resistências, e o Enem contraria muitos interesses.</P>
<P>O MEC não avaliou bem as dificuldades de transformar um exame que tinha como finalidade aferir a qualidade das escolas em um exame para dar acesso às universidades. O problema não foi de escala, foi qualitativo. O exame não estava seguro o suficiente para lidar com as atitudes fraudulentas quando interesses individuais entram em jogo.</P>
<P>O maior erro que se pode atribuir ao ministro Fernando Haddad é o da precipitação. Esta mudança na cultura de vestibular do Brasil precisava ser implantada gradativamente. E o exame em si não foi a maior precipitação, açodada mesmo foi a criação do Sistema de Seleção Unificada, SiSU. Este vem a abalar uma cultura de universidades regionais, no sentido de atenderem às populações dos estados onde se encontram, e nacionaliza o sistema de acesso ao sistema federal de ensino. A não uniformidade da qualidade da educação no Brasil deveria refrear qualquer iniciativa neste sentido.</P>
<P>O Enem mostra, ano após ano, o fosso regional, Sul e Sudeste com os melhores alunos e escolas, e o ainda mais grave fosso social, a escola pública que atende 90% dos alunos tem qualidade sofrível em comparação às escolas particulares que atendem a 10% dos alunos.</P>
<P>O MEC não impôs, mas "incentivou" que as universidades federais aderissem ao SiSU, e foram as universidades dos estados com maior dependência em relação ao MEC quem primeiro aderiram e sofreram as conseqüências. Algumas universidades de regiões mais carentes tornaram-se importadoras de alunos oriundos de escolas particulares de estados mais desenvolvidos contribuindo para o agravamento das desigualdades sociais.</P>
<P>Algumas universidades, como é o caso da UFC (Universidade Federal do Ceará), deixando de lado a precaução necessária para uma mudança desta magnitude e que influi na vida de toda uma geração de jovens, de um ano para outro abandonaram seu vestibulares próprios, e aderiram ao Enem como forma única de acesso, colocando todas suas vagas na seleção nacional unificada.</P>
<P>Agora, com o Enem mais uma vez sob risco de adiamento, estas universidades não têm um plano B e se vêem na iminência de ter que atrasarem o início do semestre letivo. Um prejuízo que poderia ser evitado, caso estas universidades tivessem aderido apenas parcialmente ao Enem, e tivessem permanecido com seus vestibulares.</P>
<P>Tivéssemos nós uma cultura universitária mais arraigada, certos arroubos não prosperariam.</P>
<P><FONT size=1>(O Povo/CE, 15/11)</FONT></P>
<P>Marcelino Pequeno é secretário regional da SBPC/CE. Artigo publicado no jornal "O Povo":</P>
<P>O roubo da prova do ano passado deveria ter blindado o Enem de qualquer possibilidade de erro operacional. O clima de incerteza pode comprometer permanentemente uma iniciativa meritória do MEC.</P>
<P>Utilizar uma prova inteligente, interpretativa e de raciocínio, em substituição a provas que exigem principalmente memória e acúmulo de informações, como estratégia para a reformulação do ensino médio no Brasil, é um avanço conceitual importante. O problema é o descrédito que o exame vai acumulando. Toda reforma encontra resistências, e o Enem contraria muitos interesses.</P>
<P>O MEC não avaliou bem as dificuldades de transformar um exame que tinha como finalidade aferir a qualidade das escolas em um exame para dar acesso às universidades. O problema não foi de escala, foi qualitativo. O exame não estava seguro o suficiente para lidar com as atitudes fraudulentas quando interesses individuais entram em jogo.</P>
<P>O maior erro que se pode atribuir ao ministro Fernando Haddad é o da precipitação. Esta mudança na cultura de vestibular do Brasil precisava ser implantada gradativamente. E o exame em si não foi a maior precipitação, açodada mesmo foi a criação do Sistema de Seleção Unificada, SiSU. Este vem a abalar uma cultura de universidades regionais, no sentido de atenderem às populações dos estados onde se encontram, e nacionaliza o sistema de acesso ao sistema federal de ensino. A não uniformidade da qualidade da educação no Brasil deveria refrear qualquer iniciativa neste sentido.</P>
<P>O Enem mostra, ano após ano, o fosso regional, Sul e Sudeste com os melhores alunos e escolas, e o ainda mais grave fosso social, a escola pública que atende 90% dos alunos tem qualidade sofrível em comparação às escolas particulares que atendem a 10% dos alunos.</P>
<P>O MEC não impôs, mas "incentivou" que as universidades federais aderissem ao SiSU, e foram as universidades dos estados com maior dependência em relação ao MEC quem primeiro aderiram e sofreram as conseqüências. Algumas universidades de regiões mais carentes tornaram-se importadoras de alunos oriundos de escolas particulares de estados mais desenvolvidos contribuindo para o agravamento das desigualdades sociais.</P>
<P>Algumas universidades, como é o caso da UFC (Universidade Federal do Ceará), deixando de lado a precaução necessária para uma mudança desta magnitude e que influi na vida de toda uma geração de jovens, de um ano para outro abandonaram seu vestibulares próprios, e aderiram ao Enem como forma única de acesso, colocando todas suas vagas na seleção nacional unificada.</P>
<P>Agora, com o Enem mais uma vez sob risco de adiamento, estas universidades não têm um plano B e se vêem na iminência de ter que atrasarem o início do semestre letivo. Um prejuízo que poderia ser evitado, caso estas universidades tivessem aderido apenas parcialmente ao Enem, e tivessem permanecido com seus vestibulares.</P>
<P>Tivéssemos nós uma cultura universitária mais arraigada, certos arroubos não prosperariam.</P>
<P><FONT size=1>(O Povo/CE, 15/11)</FONT></P>