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Um grande paradoxo brasileiro, artigo de Roberto Lent

30/08/2010 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=73103
"Por que então não eleger esta que começa como a Década da Educação e da Ciência?"<BR><BR>
<P>Roberto Lent é diretor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Conselho Deliberativo do Instituto Ciência Hoje. Artigo publicado em "O Globo":</P>
<P>É patente para todos os observadores independentes que o Brasil conseguiu infletir fortemente para cima, nos últimos anos, a modesta curva de crescimento da ciência e tecnologia que caracterizou o século passado.</P>
<P>No entanto, não foi isso que ocorreu na educação, área em que os indicadores estão estagnados ou sofreram modesta ascensão.</P>
<P>Esse grande paradoxo é simbolizado por dois indicadores internacionais: nosso país ocupa hoje o 13º lugar na produção de artigos científicos em todo o mundo, mas é o último no desempenho em ciências de jovens de 15 anos.</P>
<P>O paradoxo é tão grave que pode pôr em risco a sustentabilidade do nosso crescimento científico.</P>
<P>Como mantê-lo sem multiplicar o número de cientistas? E como multiplicá-los em uma população de jovens que não compreende minimamente os temas científicos? Como manter e o aporte financeiro à ciência e tecnologia no futuro, se a sociedade não compreender o valor que a ciência tem para o seu bem-estar e o seu progresso? Em qualquer atividade gestora, é preciso priorizar e adotar medidas estruturantes e potencializadoras.</P>
<P>Duas delas me parecem essenciais neste caso: a dedicação exclusiva do professor de ensino básico à sua escola, e o turno único para os alunos.</P>
<P>Como conseguir essa façanha? Primeiro, precisamos estar convencidos de que são esses os dois eixos fundamentais - porque repousam no fator humano, e não em laptops, salas de aula, livros e outros elementos materiais, importantíssimos, mas comparativamente fáceis de conseguir.</P>
<P>A façanha é exequível em uma década - por que então não eleger esta que começa como a Década da Educação e da Ciência? A dedicação exclusiva do professor à sua escola não depende apenas de legislação: depende de salário. E, por razões financeiras, não há como garantir um salário competitivo por meio dos municípios brasileiros, convençamo-nos disso! A proposta então é que o governo federal assuma essa tarefa: federalização da categoria dos professores do ensino básico, com o objetivo de elevar o seu salário aos níveis de um professor assistente das universidades públicas.</P>
<P>O turno único para os alunos, por outro lado, depende da duplicação da capacidade física da rede escolar em todo o país, combinando o aumento do número de escolas com a ampliação das existentes.</P>
<P>É razoável supor que a federalização dos salários desoneraria as finanças municipais em grande medida, e permitiria que os 20% previstos em lei fossem destinados à ampliação física da rede escolar.</P>
<P>Se esses dois eixos estruturantes forem adotados pelos nossos candidatos à Presidência da República, e aceitos pela sociedade, será fácil eleger o período 2011-2020 como a Década da Educação e da Ciência, e inaugurar um ciclo ideológico forte para a mobilização social, com um Esforço Nacional pela Educação e a Ciência.</P>
<P>A esses dois eixos se somariam todos os pequenos e valiosos programas e iniciativas que muitas instituições e pessoas realizam pelo Brasil afora com financiamento público e privado, tais como atividades de aprimoramento curricular, acesso à internet nas escolas, divulgação científica, bolsas para projetos docentes, e a infinidade de propostas que, cada dia mais, afloram à superfície.</P>
<P>Estamos em um momento histórico virtuoso, e precisamos mantê-lo.</P>
<P>Essa década é nossa: a década da Educação e da Ciência. E a obrigação é de todos nós: um esforço nacional pela Educação e a Ciência.</P>
<P><FONT size=1>(O Globo, 27/8)</FONT></P>
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